A espiritualidade de vencer sem derrotar o outro

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Já dissemos várias vezes que a catequese deve educar para a espiritualidade ecumênica. Essa espiritualidade, porém, tem características que não se aplicam só ao diálogo entre cristãos de Igrejas diferentes. Trata-se de um modo de ver a vida e as relações humanas, que abrange um campo bem mais amplo, com o cultivo de algumas qualidade e atitudes que vão ser importantes para mudar muito da agressividade e da competição que nos cercam no dia-a-dia.
            A propaganda nos diz o tempo todo que temos que ser “vencedores”. È verdade que ninguém quer ser um derrotado. A própria fé nos chama a vencer, mas de uma outra maneira. Perdoar, por exemplo, pode ser uma vitória bem maior do que se deixar dominar pela satisfação de ver o outro humilhado. Assim, teríamos que preparar os catequizandos para uma compreensão diferente, que combine a noção de vitória com a vivência da fraternidade, do respeito ao outro, do diálogo, do serviço. E isso não é o que a maioria de crianças, adolescentes e adultos estão vendo à sua volta e estão sendo estimulados a assumir.
            Algumas vezes, lendo artigos meio sofisticados que comentam os fatos do cenário mundial ou observações pitorescas que se referem a acontecimentos da vida cotidiana, me deparei com a expressão “vitória de Pirro”. É um modo de falar usado para se referir a vitórias tão custosas, que trazem tantos prejuízos adicionais, que acabam sendo mais danosas do que uma derrota.  É uma maneira bastante irônica de descrever certas situações e se refere a uma batalha que aconteceu no ano 280 aC. O general grego Pirro lutou contra os romanos e venceu. Mas as perdas, em ambos os lados, foram tão grandes que a história registrou, como comentário do general vencedor: “Se vencermos outra batalha contra os romanos, estaremos completamente arruinados.”
            O comentário de Pirro se referia à perda de vidas, de armamentos e  provavelmente até ao crescimento de um certo desgosto que deixaria o pessoal sem ânimo para futuras batalhas. Mas muitas vezes, na vida comum de hoje, chamamos de vitórias coisas que no fundo são prejuízos que vão se acumulando. É o que acontece, por exemplo, com o “valentão” que gosta de se impor praticando bullying com os colegas da escola. Ele humilha o outro e se afirma como “mandão”? Pode ser… mas perde um monte de possíveis amigos com quem poderia fazer coisas muito mais interessantes e, além disso, deixa de construir em si mesmo a grandiosa pessoa que poderia vir a ser se desenvolvesse uma liderança mais fraterna, cooperativa e generosa.
            Certa vez separei para trabalhar com os pré adolescentes da catequese um anúncio de álbum de figurinhas de quadrinhos de estilo japonês que usava o seguinte argumento: “Ser ninja é completar o álbum antes dos amigos!” Conversamos sobre a idéia que estava por trás do anúncio e a garotada acabou percebendo que seria muito mais gratificante “completar o álbum junto com os amigos”. Mas resolvi aprofundar a discussão. Afinal, “ninja” seria um herói, alguém valente, admirável. Será que, na simples situação de completar um álbum de figurinhas, haveria um jeito de mostrar grandeza?  Depois de algumas conversas, o grupo percebeu que muito mais “ninja” seria aquele que, percebendo que a família tem dificuldades financeiras, desistisse de completar álbuns (ou gerar outras despesas) para ser solidário em vez de ser um peso a mais nos gastos de seus pais.
            Poderíamos contemplar outras falsas “vitórias”. Numa briga de casal, por exemplo, vale a pena um derrotar e humilhar o outro, só para mostrar que tem razão?  Quando duas igrejas cristãs se encontram, vitória é o diálogo fraterno ou é conseguir provar que o outro está errado?  Melhor é um país vencer outro na guerra ou os dois se entenderem antes numa conversa de reconciliação e paz?
            Um dia o mundo vai perceber que a maior vitória é construir uma fraternidade tão grande que ninguém ache necessário derrotar o outro. Chegaremos lá, eu creio. Mas, para isso, teremos que começar agora mesmo a educar muito mais intensamente para o diálogo, a paz, a cooperação, a alegria de vencer juntos em vez de criar derrotados. Num mundo tão marcado por outros valores, a catequese é um espaço privilegiado para despertar pessoas para a aventura de viver a verdadeira vitória. Esse conteúdo não se repassa somente num debate específico sobre o tema em questão, mas se constrói pela maneira com que abordamos tudo que a catequese vai ajudar a refletir. A juventude, principalmente, precisa muito de reflexões que ajudem a combinar vitória com fraternidade, atenção ao outro, respeito aos direitos de todos, diálogo com os diferentes, resistência ao bullying. Com isso ajudaremos a construir uma espiritualidade que vai servir ao ecumenismo mas também vai preparar para vencer preconceitos, compreender o outro, defender os direitos de todos.
Therezinha Cruz