O Brasil e os brasileiros

Cardeal Odilo Pedro Scherer
Arcebispo de São Paulo (SP)

No dia 7 de setembro, comemoramos mais uma vez o aniversário da independência do Brasil. Foi dia para festejos, reflexões e manifestações de vários tipos. Sem aprovar atos de vandalismo, ouvimos os “gritos” de brasileiros que ainda não sentiram os benefícios daquele grito que tornou o Brasil um país autônomo e gestor do seu próprio destino. Nas ruas e praças do Brasil, o povo gritou uma vez mais, de muitas maneiras, o que julga não andar bem, apontou as carências na partilha do bem comum, a ineficiência no atendimento do cidadão por parte do Estado e até mesmo na gestão do Estado.

O Brasil projeta para fora de si uma imagem bem mais otimista do que a realidade mostra aqui dentro. A economia brasileira é forte, cresce o volume da riqueza produzida e consumida e, lá fora, a julgar pelos números, é passada a impressão de que o Brasil já superou seus problemas de pobreza e o déficit no desenvolvimento social. Mas não é isso que sentimos aqui dentro do País. Não se nega que o volume da riqueza cresceu e também gerou benefícios. Mas a pobreza continua grande e vários serviços essenciais ao povo continuam muito deficitários e ineficientes. Muito se falou nesses dias da situação da saúde, necessitada de tratamento intensivo…

Não é muito diferente com a educação e a segurança pública; nem falemos da habitação e da infra-estrutura de transportes, de maneira geral. Em muitas situações, o Brasil parece um adolescente, que cresceu rápido e já não cabe em suas roupas… Estou certo de que todos querem o maior bem do Brasil, ou seja, do povo brasileiro. Mas qual seria a solução para darmos um salto qualitativo na edificação do Brasil? Geralmente, ao se falar da situação do País, faz-se referência à economia, à taxa de juros, ao índice de inflação, à balança comercial, ao produto interno bruto… Não penso que se deva deixar de falar disso tudo, mas pergunto: e os brasileiros, como estão?

E então caberiam muitas perguntas sobre as várias questões atinentes à situação social do Brasil: se melhorou o nível de saúde, educação e segurança; se o saneamento básico está avançando e as condições de moradia digna estão sendo proporcionadas à grande parte da população, que ainda habita em condições sub-humanas; se melhoram as condições de acesso ao trabalho, se a violência diminuiu, se a população carcerária parou de crescer, se o acesso à justiça está mais facilitado…

Brasil rico e povo pobre? A verdade é que o Brasil não pode estar bem, se os brasileiros estão mal. O Brasil é feito, antes de tudo, de brasileiros. No centro de toda questão de governo e de políticas públicas deve estar a pessoa humana. Se a riqueza material produzida não servir para dar qualidade de vida digna a toda população, está se produzindo a riqueza pela riqueza.

Muitos lutaram pela independência, e até expuseram suas vidas; não foi apenas para se ter um território livre e autônomo, mas para dar dignidade aos brasileiros. A dignidade da pessoa humana esteve no centro de suas preocupações. E precisa estar também hoje.