UM PROFETA QUE CHORA

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Pe. José Antonio Pagola.     Tradução: Antonio Manuel Álvarez Pérez

Jesus nunca oculta o Seu carinho com três irmãos que vivem em Betânia. Seguramente são os que O acolhem em sua casa sempre que sobe a Jerusalém. Um dia Jesus recebe um recado: o nosso irmão Lázaro, “o Teu amigo”, está doente. Passado pouco tempo, Jesus encaminha-se para a pequena aldeia.

Quando se apresenta, Lázaro já morreu. Ao vê-Lo chegar, Maria, a irmã mais nova, começa a chorar. Ninguém a pode consolar. Ao ver chorar a Sua amiga e também aos judeus que a acompanham, Jesus não pode conter-se. Também Ele “se põe a chorar” junto deles. As pessoas comentam: “Como lhe queria!“.

Jesus não chora só pela morte de um amigo muito querido. Parte-se a alma ao sentir a impotência de todos ante a morte. Todos levamos no mais íntimo do nosso ser um desejo insaciável de viver. Porque temos de morrer? Porque é que a vida não é mais ditosa, mais longa, mais segura, mais vida?

O homem de hoje, como o de todas as épocas, leva cravada no seu coração a pregunta mais inquietante e mais difícil de responder: Que vai ser de todos e cada um de nós? É inútil tratar de nos enganarmos. Que podemos fazer? Rebelar-nos? Deprimir-nos?

Sem dívida, a reação mais generalizada é esquecer-nos e continuar “a seguir vivendo”. Mas, não está o ser humano chamado a viver a sua vida e a viver-se a si mesmo com lucidez e responsabilidade? Só no nosso fim temos de nos aproximarmos de forma inconsciente e irresponsável, sem tomar qualquer postura?

Ante o mistério último do nosso destino não é possível apelar a dogmas científicos nem religiosos. Não nos podem guiar mais além desta vida. Mais honrada parece a postura do escultor Eduardo Chillida a quem, em certa ocasião, escutei dizer: “Da morte, a razão diz-me que é definitiva. Da razão, a razão diz-me que é limitada”.

Os cristãos, não sabemos da outra vida mais que os outros. Também nós nos temos de aproximar com humildade ao acontecimento obscuro da nossa morte. Mas fazemo-lo com uma confiança radical na Bondade do Mistério de Deus que vislumbramos em Jesus. Esse Jesus a quem, sem o termos visto, amamos e, sem o ver ainda, lhe damos a nossa confiança.

Esta confiança não pode ser entendida de fora. Só pode ser vivida por quem respondeu, com fé simples, às palavras de Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida. Acreditas tu, nisto?”. Recentemente, Hans Küng, o teólogo católico mais crítico do século vinte, próximo do seu fim, disse que para ele morrer é “descansar no mistério da misericórdia de Deus”.